martes, 9 de enero de 2007

Reciclagem: Um tesoro no lixo

Érica Montenegro
Da equipe do Correio, Brasil

O leitor tem nas mãos um produto que pode ser reaproveitado. O papel jornal custa em média 0,02 centavos o quilo e, depois de passar por um processo de reciclagem, pode ser transformado em papel limpo pronto para ser usado de novo. Apesar do lixo brasiliense ser um dos mais ricos do país, a coleta seletiva e a reciclagem ainda não viraram prática na cidade inventada. Revirando lixeiras em superquadras da área nobre do Distrito Federal e pesando tudo que encontrava, o engenheiro florestal Benício de Melo Filho, calculou que, por semana, os moradores do Plano Piloto deixam de ganhar pelo menos R$ 75 mil em lixo que poderia ser vendido para as indústrias de reciclagem.
"Vivemos a cultura do desperdício e da completa desatenção ao meio ambiente", reclama Benício de Melo Filho, que acaba de lançar o livro "O valor econômico e social do lixo de Brasília", fruto de tese de mestrado defendida na Universidade de Brasília (UnB). Ao examinar o lixo de dez superquadras da Asa Sul (104, 112, 203, 209, 304, 315, 406, 410, 708 e 709). o engenheiro florestal chegou a dados que podem ser extrapolados para todo o Plano Piloto.
A quantidade média de lixo produzida por habitante equivale a 550 gramas por dia, sendo que mais de 50% deste total é composto por matéria orgânica, ou seja, restos de alimentos (veja quadro). "Encontrei muita comida e bebida. Garrafas de vinho pela metade e produtos cujo prazo de validade havia acabado de vencer", relata Benício de Melo Filho. A grande quantidade e o alto valor do lixo brasiliense devem ser atribuídos ao potencial de consumo da população - uma das mais prósperas do país, com per capta médio de R$ 2.324. "É uma cidade de renda alta. Quanto maior a renda, maiores e melhores são os descartes pela população", explica.
Apesar da matéria orgânica também ser passível de transformação, o que mais chamou a atenção do pesquisador foi a quantidade de papéis, plásticos, metais e vidros jogados fora. Somados, os objetos feitos a partir destas matérias primas representam cerca de 34% do lixo doméstico do Plano Piloto. Por serem componentes que já tem valor de mercado para as indústrias de reciclagem, a conclusão de Benício de Melo Filho é que os brasilienses desperdiçam dinheiro ao não comercializá-los.
Nos cálculos dele, cada quadra poderia ganhar R$ 592,62 por semana ao fazer a coleta seletiva. "O aproveitamento do lixo é feito apenas pelos catadores, de uma forma muito pouco organizada. O poder público ainda não assumiu a responsabilidade de viabilizar a reciclagem no Distrito Federal", reclama Benício de Melo Filho. O Sindicondomínios , que presta assessoria aos prédios e condomínios do DF, não tem conhecimento de nenhum edifício no DF que faça a venda de lixo produzido com vistas a baratear os custos de manutenção.
Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB e especialista em gestão ambiental, Maria do Carmo Bezerra concorda com o pesquisador quanto a necessidade do poder público de tomar providências. "Não adianta exigir que a população tenha uma postura responsável em relação à reciclagem, se a coleta seletiva e o reaproveitamento do lixo não são uma realidade na cidade", avalia. Para ela, o aproveitamento do lixo depende de mobilização social, gestão pública e existência de mercado comprador. "É uma idéia que precisa ser assumida por toda a cidade, caso contrário, não funciona", opina a especialista.
Cadeia interrompida
No plano das idéias, o ciclo da reciclagem funciona quando o consumidor seleciona o lixo, a empresa de coleta o encaminha para um local onde a separação é mantida e, em seguida, o lixo é vendido para as indústrias de reciclagem que se encarregam de fazê-lo voltar ao mercado de consumo. No Distrito Federal, a separação, o transporte e a venda - quando acontecem, costumam ser feitas de forma pouco organizada pelos catadores, que repassam o lixo para empresas atravessadoras. São estas últimas que transportam o material para as indústrias de reciclagem, localizadas em sua maioria no sul e no sudeste do país.
"Os catadores ficam nas mãos de empresas que vendem para as indústrias. E também dependem da autorização dos moradores para ir aos blocos buscar os materiais. Ou seja, estão desprotegidos em todos os lados da cadeia", aponta Maria do Carmo Bezerra. Cerca de 6 mil catadores trabalham no Plano Piloto, sendo que apenas 2,5 mil deles estão organizados em cooperativas. "É um trabalho de formiguinha, muito pouco reconhecido pela população da cidade", comenta a professora Maria do Carmo Bezerra.
Diretor de Renda e Trabalho da Fundação Banco do Brasil e autor de tese de mestrado sobre os catadores brasilienses, Jorge Streit concorda que, pela situação de fragilidade econômica, os catadores acabam explorados pelas empresas atravessadoras. "Nossa idéia é que eles trabalhem em bloco para que possam conseguir preços melhores ou que negociem diretamente com as indústrias de reciclagem", conta Jorge Streit. Em Brasília, a Fundação Banco do Brasil apoia a criação de uma central de cooperativas de catadores que está em fase de implantação. "Ao se juntarem, eles aumentarão a rentabilidade do negócio", aposta.
Diretor-executivo da ong Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), André Vilhena relata que as indústrias de reciclagem no Brasil funcionam com ociosidade entre 20 e 40 %, justamente por falta de matéria prima. Em outras palavras, as indústrias precisam de lixo. "Todo lixo recolhido tem comprador certo. Basta que a sociedade se organize para vendê-lo", afirma André Vilhena que, destaca ainda, a importância do negócio para a preservação do meio ambiente. "Não é uma questão de vantagem, é uma questão de necessidade porque as matérias primas são esgotáveis". Moradora do setor Lucio Costa, a professora Luíza Fernandes Batista viu suas preocupações ambientais serem desperdiçadas. Em 2004, enquanto síndica do bloco A4, ela levou adiante um projeto de coleta seletiva, mas teve de abortá-lo ainda no primeiro mês de implantação. A idéia era vender o lixo seco (papéis, vidros, metais e plásticos) e, a partir dos lucros gerados, diminuir o valor das taxas de condomínio. "A comunidade comprou a idéia na hora, fez sua parte. Mas, nem a empresa de coleta, nem os catadores, vieram aqui buscar o lixo recolhido", lamenta Luíza Fernandes Batista. Depois de um mês, as lixeiras do edifício estavam abarrotadas, os ratos e os insetos começavam a aparecer. Foi quando ela desistiu da idéia. "Infelizmente, não dependia só de nós, os moradores do bloco", lamenta.
A Qualix, empresa que acaba de renovar o contrato de coleta de lixo no DF com o governo, não quis detalhar como procede em relação à coleta seletiva. A empresa passa por reestruturações e decidiu se manifestar apenas quando o processo estiver terminado. O pesquisador Benício de Melo Filho reclama que a Qualix sequer faz coleta seletiva. "O único trabalho deles é tirar o lixo das vistas dos moradores", denuncia. Das superquadras do Plano Piloto, o lixo vai para a Estrutural ou para o depósito da L4 Sul. Os catadores ou recolhem diretamente das lixeiras dos prédios ou entram nos lixões a procura de lucro. "São agentes ambientais, mas acabam marginalizados pelo sistema", explica Benício de Melo Filho.

O homem papelão (retranca)
Há coisa de sete anos, Vírgilio Mota, 55 anos, viu duas caixas de geladeira desprezadas em uma das ruas de Taguatinga. Por esta época, precisava de um guarda-roupa e decidiu tentar adaptar as caixas. "Eu morava em um espaço pequeno e não encontrava móveis que me servissem", recorda. Fez o guarda-roupa a partir das caixas de geladeira e encontrou uma nova profissão: a de artesão do lixo.
De lá para cá, Vírgilio já criou 112 peças a partir do papelão desprezado pelos brasilienses. São caixas, cinzeiros, maletas, baús, peças de decoração e também móveis. "As possibilidades são infinitas, basta botar a cabeça para funcionar". No ateliê onde trabalha, em Taguatinga, causam espanto a cadeira feita de papelão e a estante produzida a partir do mesmo material. Premiada em uma exposição de decoração, a cadeira custa R$ 250 e chega a agüentar 120 quilos.
Também impressiona uma caravela feita também de papelão e cujo acabamento foi conseguido a partir de sacos de cimento. "Exige paciência, mas é das peças que mais gosto". A caravela custa R$ 300 e demorou uma semana para ser feita. Duas pessoas trabalham com Vírgilio, que consegue lucrar entre R$ 1000 e R$ 800.
Antes de virar artesão do lixo ou artista plástico ecológico - como ele prefere ser chamado, o baiano era mestre de obras. "Na verdade, eu comecei criando vasos de pvc. Via aqueles pedaços de cano sendo desperdiçados e pensava o que poderia fazer com eles", conta Virgílio.
No ateliê, chamado de Tempo Eco Arte, o processo de produção tenta seguir as regras do auto-sustentável. Para lavar o papelão e deixá-lo no ponto de ser manuseado, a equipe aproveita sempre água que já foi usada para lavar roupas ou que foi recolhida da chuva. A cola usada para fazer o acabamento das peças é atóxica. E todos os enfeites colocados a parte foram também encontrados no lixo. "Eu reviro lixeiras e, quando gosto de alguma coisa, eu guardo. Um dia, elas me servem", explica o homem que aprendeu a ganhar dinheiro com aquilo que usualmente é rejeitado

5 comentarios:

kike dijo...

Buenos días tu blog es de el salvador?
porfavor contactate con migo gracias

Fedush dijo...

ddd

Fedush dijo...

Que barbaridad. Cuando veo los basurales me pregunto porque se produce esto. La miseria que existe, mientras algunos pocos viven como se le da la gana. Como siempre las cosas están mal distribuidas.
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Fedush dijo...

Te llevas mis votos. Felicitaciones. Tus contenidos son muy buenos.

Dhha dijo...

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